O avesso do afeto: a maternidade violentada no conto Aramides Florença
DOI:
https://doi.org/10.48017/dj.v11i1.3535Palavras-chave:
Literatura negra, Slavoj Žižek , Gênero, MaternidadeResumo
Mulheres (2017), de Conceição Evaristo, à luz do materialismo lacaniano proposto por Slavoj Žižek, com especial atenção às intersecções entre gênero, raça e violência simbólica. Partindo da categoria de escrevivência, criada por Evaristo, a pesquisa investiga de que modo a narrativa tensiona os discursos naturalizados sobre a maternidade e o amor romântico, revelando suas implicações opressoras sobre o corpo e o desejo da mulher negra. O objetivo geral é compreender como a maternidade, idealizada como espaço de afeto, torna-se mecanismo de controle e violência no contexto de uma relação regida por estruturas patriarcais. Os objetivos específicos incluem: (1) identificar as formas de violência presentes na narrativa segundo a categorização de Žižek (simbólica, objetiva e subjetiva); (2) articular essas formas às instâncias da tríade lacaniana (Simbólico, Imaginário e Real); e (3) analisar como as experiências da personagem Aramides refletem as imposições de gênero e raça nas relações afetivas e familiares. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza interpretativa e bibliográfica, que articula crítica literária, materialismo lacaniano e estudos de gênero e raça. A fundamentação teórica baseia-se nos escritos de Slavoj Žižek (2010, 2014), Judith Butler (2018), bell hooks (2018), Pierre Bourdieu (2010). Os resultados indicam que o conto evidencia um percurso de transformação da afetividade em opressão, revelando o avesso da maternidade quando esta é vivida fora da lógica do desejo masculino. A violência sofrida por Aramides — física, simbólica e emocional — é interpretada como sintoma de um sistema que marginaliza o desejo autônomo da mulher negra, desumanizando sua experiência materna. Como perspectiva, o artigo sugere a ampliação dos estudos sobre as representações da maternidade negra na literatura contemporânea, articulando narrativas de resistência à crítica das estruturas simbólicas que moldam os afetos. A relevância da pesquisa reside na contribuição que oferece para os campos da crítica literária, dos estudos psicanalíticos e das teorias interseccionais, ao promover uma leitura que denuncia e desestabiliza discursos normativos sobre gênero, raça e afeto.
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